Continente – Exposição​ Fernando Aidar e Mônica Ventura

Datas: 29 de outubro de 2026 a 30 de janeiro 2027

Horários: Qui e Sex – 12h às 18h | Sáb – 11h às 16h | Demais dias e horários sob agendamento

Local: Av Rebouças, 2915 – Pinheiros, São Paulo/SP

Sobre: A exposição reúne esculturas de Fernando Aidar e Mônica Ventura que exploram o recipiente como forma ancestral de guardar, transportar e atravessar territórios. Entre a cerâmica e as formas da cabaça, as obras evocam diásporas, memórias e heranças culturais que se cruzam no Brasil. A partir de diferentes trajetórias, os artistas investigam como objetos e corpos carregam histórias, transformam-se nos deslocamentos e produzem novos sentidos no encontro entre culturas.

Artistas: Fernando Aidar e Mônica Ventura

Curadoria: Monica Hirano

Texto Conceito

Continente é o que contém. É também a massa de terra que os oceanos separam. Esta exposição habita as duas acepções da palavra. Ao reunir pela primeira vez Fernando Aidar e Mônica Ventura, e ao marcar a entrada de Fernando na Diáspora Galeria, ela parte de uma das formas mais antigas e primordiais que existem: o recipiente. O corpo oco, feito para guardar e para levar. Aquilo que contém e aquilo que cruza continentes.

Poucos objetos são tão elementares quanto a cabaça. Ela nasce oca, pronta para receber água, e serviu ao ser humano antes da cerâmica e antes do metal. A natureza ofereceu o vaso antes que a cultura aprendesse a modelá-lo. Mais extraordinária que a forma é a sua viagem: única planta cultivada com distribuição global antes de 1492, a cabaça pode ter simplesmente boiado pelo Atlântico, levada pelas correntes, para só depois ser domesticada nas Américas.1 Houve uma diáspora da cabaça anterior à diáspora dos povos e, um eco mais fundo se insinua: se o fruto vem da África, também dali veio a espécie humana. Mônica Ventura, de ascendência africana, parte dessa forma para escavar as técnicas construtivas pré-coloniais de povos africanos e ameríndios, deslocando a cabaça do utensílio para a escultura.

Fernando Aidar une-se à discussão pela cerâmica, que é, nas suas palavras, uma transformação da terra. Barro, água, ar e fogo, reunidos e manejados, transformam-se em pedra e atravessam milênios. Inventada de forma autônoma em quase todos os continentes, ela é talvez a primeira tecnologia global. A mais antiga que se conhece, com cerca de 20.000 anos, é chinesa, das cavernas de Xianrendong. E Fernando é, por parte de família, chinês. Pela outra metade, libanesa, entra a ânfora, o grande recipiente do comércio marítimo antigo, espalhado pelo Mediterrâneo por navegadores da costa levantina, hoje o Líbano. Muitas ânforas não param de pé sozinhas: precisam ser apoiadas ou enterradas. Fora de seu contexto, o objeto utilitário perde a função e passa a ser pura forma, volume e presença, na fronteira entre uso e contemplação que dá vida às formas.

É no Brasil que esses trajetos se encontram. As famílias dos dois artistas vêm de diásporas distintas, e foi aqui que se cruzaram, num país que se inventou com a confluência de imigrações.4 A parceria entre os dois repete, em escala íntima, esse movimento maior. Afinal, a diáspora não é a memória de uma origem perdida a ser reconstituída, mas identidade em contínuo devir, feita de diferença e de mistura.

O que um vaso guarda? Nem sempre o que ele contém é visível. Pode conter água, semente ou grão. Pode conter memória, história, pertencimento. Lembremos que todo espaço interior guardado, a concha, o ninho, o cofre, é também espaço de intimidade e de devaneio. Nesse sentido, as esculturas de Fernando Aidar e Mônica Ventura são recipientes de dupla natureza. Contêm o vazio que qualquer vaso oferece. E contêm, no barro e na casca, as histórias de circulação e de reencontro que fizeram deles, e de nós, o que somos.

 

 

Monica Hirano